Apesar de ter produzido 42 toneladas de ouro, garimpo deixou um rastro de miséria. Desafio agora é recuperar o passivo social
Sentados ao redor de uma mesa de madeira na porta do Bar do Araújo, quatro garimpeiros disputam uma partida de dominó numa tarde de calor sufocante em Serra Pelada. Ao final de mais uma rodada, o cléc-cléc das peças brancas dá lugar à discussão preferida dos habitantes do povoado nas últimas semanas: a possível visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos próximos dias. Mais do que ver Lula de perto, os garimpeiros esperam com ansiedade a entrega da licença que dará sinal verde para a reabertura de Serra Pelada. Quase 20 anos depois de ter o garimpo encerrado, a mina voltará a produzir o ouro que atraiu mais de 100 mil homens de todo o Brasil que sonhavam "bamburrar" – ou enriquecer, na gíria local. Com uma diferença: a partir de agora, a extração será mecanizada. Para quem nunca deixou o povoado, a retomada representa uma esperança de melhorar de vida. “A nova mina vai ajudar a resgatar o passivo social de Serra Pelada”, disse ao iG Heleno Costa, diretor da mineradora canadense Colossus Minerals e responsável pelo projeto.
Serra Pelada produziu 42 toneladas de ouro durante a década de 1980. Apesar disso, deixou para trás um rastro de miséria. Os garimpeiros mais antigos costumam repetir que, dos 100 mil homens que passaram pela região, apenas 1% encontraram ouro em grande quantidade. Destes, só 10 ficaram efetivamente ricos. Uma rápida caminhada pelas ruas de chão batido do povoado, a 55 quilômetros do município de Curionópolis, no sudeste do Pará, é o suficiente para comprovar a teoria. A maior parte dos seis mil habitantes vive em casas de madeira com telhado de palha, sem rede de saneamento básico ou água encanada. A luz elétrica vem de ligações clandestinas. Emprego é um privilégio de poucos e, para pagar as contas, muitos cobram R$ 25 ao dia para fazer bicos nas fazendas das redondezas. Piauiense de São Pedro, Luís Paulo do Nascimento chegou a Serra Pelada em 1981. Nunca bamburrou. “O máximo que consegui foi tirar três gramas por dia”, afirma. Hoje, mora num barraco de madeira em frente à cava, como é chamado o buraco cavado pelos garimpeiros no auge da corrida do ouro e que encheu de água.